Uma pessoa tentando passar por ele no ônibus lotado era o mais perto de um abraço que recebia. E o choque eventual dos ombros, inevitável com tantas curvas e trancos provocados pela direção nervosa do motorista, fazia seus pêlos arrepiarem e a sensação era quase igual à de tocar as mãos da primeira paixão de infância. O olhar de desconhecidos, por mais que instantâneos, faziam-no sentir importante. “Sou alguém que merece ser visto”, pensava. Se alguma senhora de idade viesse puxar assunto sobre o trânsito ou o tempo, então, era o auge do dia: estava estampado em seu rosto como era bom de papo. Apaixonou-se diversas vezes. Viveu amores eternos que duraram uma ida ao trabalho. E, melhor, todos correspondidos. A mocinha de calça social oferecera-se para segurar sua mochila. Prova de amor. Sem cerimônia, sem disfarce. “Como as mulheres de hoje em dia são ousadas!”. Naquela noite, até dormiu com um sorriso no rosto…
[09.05.2013 - Laís Muniz]


Viciada em Duane Michals.




Existe aquela célebre frase que diz: quando se ama, não há barreiras. Estive pensando e sou obrigada a discordar. Quando eu amo, as barreiras apostam corrida pra se colocar na minha frente. Eu mesma as construo com a marca mais cara de tijolos-interrogação. Se não tem dúvida, eu invento! Tento me convencer de que, na verdade, não sinto nada daquilo. Que estou confundindo, que estou viajando. E, por que? “Vai saber!”, digo em voz alta, para quem quiser escutar.
É porque sou medrosa. Mas falar isso, assim, abertamente, é coisa que eu só faço mesmo aqui, sozinha e trancada no território que compreende o meu quarto e uma parte pequena da minha consciência; aquela que adora o prefixo “sub”. É medo, sim. Trauma, se eu quiser deixar mais dramático. Minhas experiência passadas - que, preciso dizer, não foram muitas - avisam que amar é perigoso. Medo é instinto de sobrevivência, não é? Faz todo o sentido quando se explica dessa forma. Fugir do que a gente sabe que dá errado é não só natural como ocupa a categoria de atitude sensata.
O problema está aí. Amor também é instinto. Quer dizer, isso é o que dizem e eu não me atrevo a criar objeções. Como é que a gente faz quando um instinto entra em conflito com outro? Não dá pra tirar par ou ímpar pra decidir quem venceu. Dá confusão! Aí, o sentimento cresce e vai se espalhando enquanto o outro lado tenta, a todo custo, controlá-lo. No fim das contas, fica um amor escondido, renegado, defeituoso pra quem olha de longe, mas gigante pra mim, que sinto. Porque ele vence! Vence mas carrega as cicatrizes da batalha.
Meu amor e suas barreiras, ah, praticamente inseparáveis! Depois de passar pela longa fase do amo-ou-não-amo, entro na do ele-não-me-ama. Mesmo quando está tudo muito claro, consigo duvidar. Transformo qualquer coisinha em motivo, quem não acreditar que pergunte aos meus amigos. Eles sabem porque escutam os absurdos (“absurdos” é como eles chamam o que, pra mim, são pensamentos lógicos). É que eu penso demais e pensar demais nunca fez bem. Que nem quando a gente fica repetindo um nome e, na décima vez, ele começa a parecer estranho. Laís, Laís, Laís, Laís, Laís. La-ís. Laís?
No meio disso, faço um monte de besteiras. Decido com o testemunho do meu travesseiro que vou deixar rolar, não vou me preocupar, serei espontânea, falarei o que penso e, principal, o que sinto. Decido e acredito com toda a força na minha decisão, até a manhã seguinte. Ou até a próxima situação em que percebo que continuo fazendo coisas que não deveria. Tipo dizer que tenho que ir embora só pra evitar a falta de assunto. Porque, afinal, quem sabe se ia ter assunto depois daquele, né? Melhor não arriscar. Ô, raiva!
E aquele papinho de não dar moral? Minha cara! Sou prisioneira dos joguinhos de conquista. Não que eu me divirta com eles, pelo contrário… Só tá enfiado na minha cabeça que dar atenção é errado. De onde eu tirei isso? Tudo bem, tem aquilo de “pisa que ele gruda”, mas, fala sério. Que palhaçada. Que bobeira. Não gosto disso. E sou hipócrita porque não gosto e, ao mesmo tempo, tenho meus atos totalmente regidos por esse pensamento. Tenho que parar com essa conduta controversa.
Tenho que parar com esse medo. E, ó, escrever me deixou mais cara de pau, então vou até colocar o complemento: medo de ser rejeitada. No fundo, é isso aí, quem eu quero enganar? (beleza, sei que quero enganar a mim mesma, mas vou parar de responder as minhas próprias perguntas, senão fica chato e ainda pago de gente que acha que sabe de tudo). Sinceramente, acho que estou caminhando na direção certa. Tenho deixado de lado alguns orgulhinhos idiotas. Aos poucos, mas tenho. O negócio é continuar indo. Não desistir, que é outra coisa que tenho mania de fazer. Ideal seria chutar as barreiras e poder dar aquela frase, a do começo desse texto, como verdadeira. Não vou me iludir a esse ponto! Basta reduzi-las à metade.
É o que eu quero.
P.S.: Tudo isso e eu nem estou amando. Eu acho que amo a ideia de achar que ainda vou amar. A possibilidade. Porque, antes, eu sentia que nunca ia amar tal-pessoa. Eu tinha certeza. Com tal-outra-pessoa, a porta fica aberta. Aí deixa um “será?” no meu caminho. E eu fico dando atenção a ele. Maldito “será?”! Lamento ter de admitir que não passo de uma sonhadora. Realista, que nada. Todo mundo tem mais esperança do que acha que tem, espertona. Por que você seria exceção?
